“Servir a Deus é reinar.” Esta frase atribuída a Santo Agostinho exprime um paradoxo que a vida de São Charbel ajuda a compreender: quanto mais uma alma se submete a Deus, tanto mais se liberta de tudo aquilo que a escraviza.
O que significa ser livre?
Para a mentalidade moderna, liberdade significa frequentemente ausência de vínculos: ser livre seria poder escolher sem impedimentos, seguir os próprios desejos e dispor da vida segundo a própria vontade.
Mas basta observar a natureza humana para perceber a insuficiência dessa definição. Nem todo desejo conduz ao bem; nem todo impulso merece ser obedecido. Um homem incapaz de contrariar uma paixão não é senhor de si: é governado por ela.
A liberdade supõe, portanto, uma ordem. E essa ordem começa quando a inteligência reconhece o verdadeiro bem e a vontade aprende a escolhê-lo, mesmo quando isso exige sacrifício.
Foi nessa escola que São Charbel viveu.
A disciplina que liberta
A austeridade de São Charbel impressiona. O silêncio, os jejuns, a obediência monástica, o trabalho, as vigílias e as longas horas de oração poderiam parecer, a um olhar superficial, uma sucessão de limitações.
Para ele, eram precisamente o contrário.
Ao disciplinar os sentidos e renunciar ao supérfluo, São Charbel procurava impedir que as coisas criadas ocupassem na alma um lugar que pertence somente ao Criador. Não desprezava a criação; recusava-se a tornar-se escravo dela.
Há uma diferença fundamental entre possuir uma coisa e ser possuído por ela.
O homem pode utilizar legitimamente o conforto, procurar o repouso, alegrar-se com uma amizade ou apreciar os bens desta terra. A desordem começa quando já não consegue prescindir deles sem perder a paz.
São Charbel quis levar essa liberdade a um grau extraordinário. Quis precisar de cada vez menos para pertencer cada vez mais inteiramente a Deus.
Senhor de si porque servo de Deus
É aqui que aparece o sentido profundo da expressão “servir a Deus é reinar”.
O homem que procura satisfazer todos os seus desejos imagina ser livre, mas torna-se facilmente dependente deles. Cada satisfação reclama outra; cada comodidade cria uma nova necessidade; a procura da aprovação alheia torna a alma tributária da opinião dos outros.
São Charbel percorreu o caminho inverso.
Pela obediência, aprendeu a renunciar à vontade própria. Pela penitência, submeteu o corpo à direção da alma. Pelo silêncio, afastou muito do ruído que dispersa o espírito. Pela oração, ordenou tudo para Deus.
Não se tornou menos homem por isso. Tornou-se mais senhor de si.
A verdadeira liberdade cristã não consiste em não ter senhor. Consiste em reconhecer o único Senhor cujo domínio não degrada o homem, mas o aperfeiçoa.
A paz de uma alma ordenada
Essa ordem interior explica também a paz característica da vida de São Charbel.
Não se tratava de uma existência sem sofrimento. A vida monástica e, sobretudo, a vida eremítica exigiram dele renúncias constantes. Contudo, as circunstâncias exteriores já não possuíam o poder de determinar o sentido de sua existência.
Quando Deus ocupa o primeiro lugar, cada coisa encontra a sua justa proporção.
O prazer deixa de ser um fim. O sofrimento deixa de ser absurdo. A opinião humana deixa de ser um tribunal supremo. Os bens materiais deixam de prometer aquilo que não podem dar.
A alma adquire, então, uma espécie de soberania interior. Não porque se torne insensível, mas porque aprende a julgar as coisas segundo uma hierarquia superior.
A liberdade de querer o verdadeiro bem
É talvez aqui que São Charbel tenha uma lição particularmente necessária para o nosso tempo.
A liberdade não alcança a sua perfeição quando o homem consegue fazer tudo aquilo que deseja, mas quando aprende a desejar aquilo que é bom.
Uma vontade incapaz de dizer “não” é uma vontade fraca. Uma vontade educada pela verdade e fortalecida pela graça torna-se capaz de escolher o bem mesmo quando o bem custa.
São Charbel levou essa lógica às últimas consequências. Não procurou primeiro a própria felicidade. Procurou a Deus. E, ordenando a vida inteira para Ele, encontrou aquela paz que as criaturas, por sua própria natureza, são incapazes de proporcionar.
Sua existência apresenta, assim, um paradoxo admirável: o eremita que renunciou a quase tudo possuía aquilo que tantos homens, cercados de bens, procuram sem encontrar — a liberdade interior.
“Servir a Deus é reinar”
São Charbel foi livre porque não quis pertencer às suas paixões, ao conforto, à opinião dos homens nem ao espírito do mundo. Quis pertencer a Deus.
É nesse sentido que a sua vida ilumina a antiga máxima cristã: servir a Deus é reinar.
Reinar, antes de tudo, sobre si mesmo. Colocar cada tendência em seu lugar, cada desejo sob a direção da razão iluminada pela fé e toda a existência sob o domínio amoroso de Deus.
Esta liberdade não se alcança num instante. Conquista-se na fidelidade quotidiana, na oração, nos sacramentos, no cumprimento do dever e nas pequenas renúncias pelas quais aprendemos a preferir o bem ao simples prazer.
Que São Charbel nos obtenha a graça dessa liberdade: sermos menos governados por aquilo que passa e cada vez mais inteiramente pertencentes Àquele que permanece.
São Charbel, homem livre porque inteiramente de Deus, rogai por nós.